PESADELO

Paulo César Pinheiro

PauloCPinheiro

“Durante o governo militar, depois do golpe de 1964, a cultura brasileira vivia uma terrível e dramática realidade, esmagada sob as botas do poder fardado e dilacerada pela tesoura de chumbo das mãos da censura federal.

Escritores e compositores se esbarravam, cotidianamente, nos corredores desses sombrios órgãos que representavam o autoritarismo. Os funcionários, pelos quais passava a nata do pensamento brasileiro, eram, no mais das vezes, barnabés do funcionalismo público, alçados a tais cargos por subserviência e alienação. Era com esses medrosos e ignorantes servidores da ditadura que tínhamos que dialogar, na esperança de conseguir uma liberação de nossa obra.

Era tamanha a burrice, para vocês terem uma ideia, que, quando a minha canção “Sagarana” foi vetada, me dirigi a uma das sedes dessas repartições para tentar, com os argumentos de que eu dispunha, o carimbo de aprovação. Levei comigo um exemplar do livro homônimo de Guimarães Rosa, um acadêmico, a quem a música foi dedicada, para mostrar a importância do autor, respeitado no mundo inteiro, e pra apagar qualquer visão de que aquilo pudesse ser um tratado subversivo contra a ordem estabelecida. Dois senhores me atenderam naquela casa nefasta da Álvaro Alvim, esquina com Rua México. Com a letra numa mão e o livro noutra, expliquei quem era Guimarães, a magnificência de sua literatura, o modo ímpar de seu estilo. “Argumentei que, o que fizera, foi apenas transpor pra música esse jeito único e original de escrever. Era um tributo, uma saudação a um transformador da língua portuguesa. Eles leram os versos, folhearam as páginas dos contos, se entreolhando desconfiados. No meio daquele silêncio que se fez, sem a menor noção da altura literária daquele autor magistral, um deles se saiu com a seguinte pérola:

– É melhor a gente manter o corte. Isso parece linguagem de código. Mensagem cifrada. Coisa de guerrilheiro, sei lá. Pra todos os efeitos, não sobra pra gente.

Era assim a censura. Era com essas pessoas que a gente tinha que lidar. E era uma batalha pra driblar os caras, dizer as mesmas coisas com outras palavras, dar o mesmo sentido da frase eliminada no verso substituído. Era duro, mas a gente, com paciência, inteligentemente se defendia e a caravana passava.

PesadeloUm dia, cansado de tanto entrevero judicial, exausto do policiamento às minhas palavras, de saco cheio de frequentar as salas bolorentas desses indivíduos de cérebro de camarão, resolvi chutar o balde e virar a mesa. Propus a Maurício Tapajós um canto de guerra. Uma canção em que não usássemos metáforas, em que disséssemos claramente o que pensávamos, direta, sem subterfúgios, sem firulas, sem máscaras. Ele topou sem nenhuma fé, mais por brincadeira. Não acreditava que isso fosse longe. Cantaríamos nas reuniões, tão somente. Eu não. Eu fui com tudo. Caprichei. Botei naquele poema o sentimento de revolta que afligia toda cabeça pensante de uma geração atormentada pela mudez, intimidada pelas armas, sufocada pelo arbítrio. Depois de exorcizados os nossos próprios demônios, por meio da música que acabava de nascer, mostramos pra rapaziada do MPB-4. Eles adoraram, mas o comentário era unânime. Isso jamais passaria. Era uma pena. Isso vai pra gaveta. Não tem jeito. Aí desafiei:

E se eu conseguir liberação, vocês gravam?

Claro! Mas duvido muito. Vai ser cortada já no nome. De qualquer forma, tá fechado. Se passar, gravamos.

Parti pras minhas artimanhas, então. Saquei, com amigos que tratavam desse departamento na Odeon, que alguns compositores eram visados e outros não. Alguns discos demoravam mais de um mês até, pra voltar da censura com a devida autorização, mas pra outros o trâmite era rápido. No dia seguinte mesmo. Fui fuçar pra ver o que acontecia. Descobri que o repertório de alguns cantores era examinado minuciosamente. Dos bregas, dos românticos, do pop, nem se davam ao trabalho de ler. Carimbavam imediatamente e despachavam. Foi nessa observação que joguei minhas fichas. Peguei o “Pesadelo” e enfiei na pasta de letras do LP de Aguinaldo Timóteo, com a conivência cabreira do encarregado desse serviço, meu companheiro de sinuca. A pasta chegou com a liberação na outra manhã.

Com a xerox na mão, fui ao MPB-4 cobrar a dívida. Eles se alegraram e louvaram minha ousadia. O canto foi gravado e começou o bochicho. Nos shows do grupo era o ponto alto. As rádios, porém, com exceção de pouquíssimas pelo Brasil afora, não executavam a canção. O clima era tão pesado, na época, que as emissoras se autocensuravam com receio do regime. Nem com o documento carimbado que eu exibia sempre, eles se atreviam. Virou a música mais poderosa de contestação que se apresentou durante a ditadura. Foi o hino da Guerrilha do Araguaia, contado a mim por quem lá esteve e sobreviveu.

A vida inteira me perguntaram como esse canto conseguiu furar o bloqueio. A história é essa. Ah!…e agradeçam ao Aguinaldo Timóteo, que nem soube nunca desse fato.”


N.R. Texto reproduzido do livro “Histórias das minhas canções”. Paulo César Pinheiro: São Paulo: Leya: 2010.


Nº 140 | 15/09/17 | Pág. 4