Associação de Músicos, Arranjadores e Regentes

O PIANO


O PIANO

(Jorge Roberto Martins)

sei de tuas cordas cobertas de madeira e pó

dos teus acordes tremores, o incontido som

sei do teu corpo harmônico, meu desatino

o toque soando os rumores, a corda

vibra por versos dolentes

adágios de uma impressão

e as mãos passeando em teu rosto subindo sustenidas, descendo bemóis

velho e novinho em folha brilhantemente negro e formoso

a um só tempo solene e íntimo

dos séculos e dos amanhãs

às vezes não me dou conta e te belisco num descuido do tampo, do tempo

e o som pizzicato ressoa

mesmo tímido, imenso pra mim

lá embaixo, meus pés sobre os teus aumentam e sustentam a tensão

por vezes abafam, e aí sussurros

minhas mãos em tua fronte, tua frente

seus oitenta e tantos humores

às vezes contidos, graves, noturnos

às vezes escancarados, agudos, solares

quando médios, sorrisos quando todos, tudo


Jorge Roberto Martins é jornalista, radialista e crítico de música. Mas sobretudo é um artista que escolheu o piano como forma de expressão musical e a poesia como manifestação literária. Na atualidade, produz e apresenta pelas ondas da Rádio MEC dois programas de excelência: “Sala de Música” (MEC FM 99,3 – domingos, às 23h / AM 800 – quarta-feira, 23h), ao vivo, e “Sala do Ouvidor” (MEC-AM/800 – 21,15h), diário. Em livro, Jorge Roberto tem publicados: “Na cadência do choro” (2006), com o mestre bandolinista Afonso Machado, e as coletâneas de poemas “Luas de Paquetá” (2009) e “Cá entre nós” (2014), de onde extraímos o belíssimo poema acima. Ex-presidente do Museu da Imagem e do Som-RJ, Jorge Roberto Martins, por seu trabalho em favor da melhor música brasileira, merece todos os nossos aplausos.

By | 2019-01-22T16:39:36-03:00 23/06/2015|OUTROS|1 Comentário

Um Comentário

  1. jorge roberto martins 24/06/2015 em 21:12 - Responder

    Meu coração não parou, acelerou-se. Consegui freá-lo a tempo. Mas as lágrimas…ah, estas fizeram a festa.
    O piano agradece de tampa aberta e sonoridade que só ele tem. Eu o acompanho no agradecimento. Confesso, me emocionei.
    Abraços a todos.
    (Ô Neilô, você é fogo…goiabada cascão em caixa, coisa fina e de se admirar)

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