Associação de Músicos, Arranjadores e Regentes

INTERLOCUÇÃO COM A DITADURA


Vale a pena lembrar que a AMAR foi fundada em setembro de 1980, como herdeira da SOMBRÁS – movimento pioneiro que, nos anos 70, lutou pela autonomia do Autor musical e denunciou o controle do sistema autoral brasileiro pelos grandes conglomerados da indústria fonográfica – e como a única entidade de gestão coletiva do Brasil criada e administrada, sem interferências outras, exclusivamente por autores, compositores e criadores musicais.

A geração SOMBRÁS, espremida entre a emergência de uma vigorosa indústria musical e o anacronismo da gestão dos direitos de autor no país, soube construir, pela primeira vez em nossa história, um discurso coerentemente articulado e de caráter coletivo, sobretudo. Até então, a denúncia de nossas mazelas e carências autorais era marcada pelo tom queixoso e individualista de um ou outro autor descontente e isolado, que mais visava obter a indulgência paternalista dos dirigentes societários que apontar os erros e distorções do quadro de arrecadação/distribuição. Com a SOMBRÁS, a lamúria individual foi substituída pela reivindicação coletiva, sintonizada, ademais, com as principais demandas políticas da sociedade civil da época. Daí resultava ser, a SOMBRÁS, o único segmento a possuir um novo projeto para o direito de autor em nosso país – e não foi por outra razão que ela foi chamada a ser interlocutora do Estado, mesmo durante o difícil período do arbítrio.

Interessante observar que, nos chamados anos de chumbo, o Estado autoritário precisou de interlocução. E a SOMBRÁS aceitou o diálogo pelas mesmas razões que, sob perigo, um cidadão ameaçado clama pela presença de polícia. Além de receptivo a (pelo menos) ouvir o projeto da SOMBRÁS para o direito de autor, o Estado mostrava-se também a única possibilidade para se chegar à “caixa preta” das sociedades autorais, até então indevassável. É claro que o diálogo dos autores com a Ditadura era visto com especial cautela dentro da própria SOMBRÁS. Tanto que Chico Buarque, Sérgio Ricardo e Hermínio Bello de Carvalho, chamados para um encontro com o ministro da Educação e Cultura, Ney Braga, foram enfáticos ao impedir a cobertura jornalística da reunião – sob o fundado receio de que suas imagens e a da entidade fossem exploradas pela propaganda daquele mesmo governo que patrocinava a censura e o arbítrio.


Nº 140 | 15/09/17 | Pág. 2

By | 2017-09-18T14:08:20-03:00 15/09/2017|NEWS|0 Comentários

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